De todo o currículo de
Osamu Tezuka, uma de minhas obras favoritas é, sem dúvida,
Jungle Taitei (O Imperador da Selva). Se você ainda não sabe do que estou falando, experimente forçar um pouco a memória e lembre-se de
Kimba, O Leão Branco,
um dos mais antigos animes exibidos no Brasil – e também um pioneiro,
pois, em seu país de origem, foi a primeira animação para TV totalmente a
cores. Hoje, talvez Kimba seja mais conhecido pela famosa acusação de
plágio contra o mega-sucesso
O Rei Leão
dos estúdios Disney, que se gabava de produzir o primeiro longa
metragem animado da empresa que não estava baseado em clássico da
literatura mundial. Mas não estamos aqui para falar das controvérsias
envolvendo os dois títulos: o foco é o mangá que deu origem à série
animada e dela difere em muitos pontos. Também não se pode nadar contra a
corrente, porque uma inspiração óbvia para Kimba foi nada

mais, nada menos, do que o clássico
Bambi, de Walt Disney, que Tezuka assistiu cerca de oitenta vezes quando o filme estreou no Japão
(depois da guerra, um ingresso de cinema era cerca de quinze centavos).
Ele próprio conta que enquanto assistia ao filme, maravilhado com a
perfeição anatômica dos animais em cena, buscava imitar todos os
movimentos dos bichos, em desenhos que fazia em sua caderneta durante a
sessão. Outras vezes, voltava ao cinema para verificar qual a reação do
público entre uma cena e outra. Mas talvez o que mais o tenha fascinado
foi o profundo conteúdo filosófico implícito no filme, protagonizado por
animais não antropormórficos, embora ainda com algumas características
humanas. Tezuka jamais negou sua predileção para desenhar criaturas
não-humanas, como dinossauros e animais; então, era natural que cedo ou
tarde se empenhasse em criar sua própria história protagonizada pelos
mesmos.
Kimba, o Leão Branco, foi o
primeiro mangá de Tezuka serializado em uma revista de veiculação
mensal, e que não era um único título com início, meio e fim, e, sim uma
série em vários capítulos. Essa prática, tão conhecida e usada
atualmente, foi uma grande inovação nos idos de 1950, mas também foi
bastante criticada pelos fãs mais radicais, que julgaram a iniciativa de
Tezuka muito mal, e passaram a enxergá-lo como um vendido, que estaria
se prostituindo com o seu trabalho, fugindo do esquema originalmente
proposto durante a fase que foi marcada pela famosa trilogia de ficção
científica:
Lost World, Next World e
Metropolis, mas as críticas não evitaram que o mangá se

tornasse
um tremendo sucesso. A decisão de dividi-lo em capítulos abriu as
portas para inúmeras possibilidades narrativas jamais imaginadas.
Kimba é um Tezuka em sua melhor forma – a história que estabeleceu os
parâmetros sob os quais seriam construídos alguns dos maiores clássicos
do autor, tais como
Buda e
Hi no Tori (Fênix).
No entanto, a série é um produto de seu tempo e hoje em dia é atacada
pelo uso estereotipado da cultura nativa da África. É claro que não se
pode esquecer que a grande influencia de Tezuka foi Walt Disney, e que,
nos curtas animados da época, era muito comum o uso da
black face (uma prática originada nos teatros, onde os negros eram retratados com feições simiescas).
Além disso, boa parte dos conhecimentos de Tezuka sobre o continente
africano provinha dos filmes de Hollywood, que também usavam e abusavam
dos mesmos estereótipos. Mas isso nunca impediu que continuassem a ser
comercializados.
Tarzan, de
Edgar Rice Burroughs, apesar
de ser um dos melhores romances de aventura do inicio do século 20,
também foi responsável pela propagação dessa visão politicamente
incorreta dos povos africanos, e teve grande influência sobre Tezuka.
Muitas situações presentes em Kimba lembram os livros do homem-macaco.
Outros autores de quadrinhos que hoje sofrem por motivos similares são
Hergé (As Aventuras de Tintim) e
Carl Barks (criador do Tio Patinhas e de vários personagens que se tornaram imortais nos quadrinhos Disney).
É claro que, acima de tudo, Tezuka era um humanista convicto e
criticava os preconceitos que abalavam a sociedade de seu tempo. Se

hoje
estivesse vivo, certamente redesenharia de bom grado cada um dos
quadros que pudessem ser considerados ofensivos aos padrões
político-sociais da atualidade, a exemplo de
Shotaro Ishinomori, que, em 1980, reformulou o visual de
Pyunma, o personagem africano de
Cyborg 009 (que também se valia da black face), para o filme
“A Lenda da Supergaláxia” e que mais tarde seria reaproveitado na série de 2001 exibida no Brasil.
Kimba: o Leão Branco é uma obra
acima de todas essas críticas e merece o status de clássico. Cada
pessoa que o conhecer um dia, estará fazendo um favor a si mesmo,
desfrutando de uma leitura bastante agradável. E lembre-se que não se
trata de um mangá sobre animais fofinhos e suas aventuras na floresta: é
sobre o eterno ciclo da vida, uma tragédia que, no fim, deixa acesa uma
minúscula fagulha de esperança na mente de seus leitores. Um verdadeiro
culto ao direito de coexistência entre as diferentes espécies de nosso
mundo, seja humano ou animal.
O Imperador das Selvas: Avante, Kimba!
Para melhor assimilação dos leitores, vamos usar o nome Kimba para o personagem central em lugar de
Leo, como é conhecido no Japão: Ao pé dos
Montes Ruwenzori, na fronteira entre Congo e Uganda, vive
Panja,
o rei dos leões brancos, que governa todo o continente e protege os
animais mais fracos dos ataques predatórios dos homens. Mas depois que é
brutalmente

assassinado por caçadores, sua consorte
Eliza
é capturada e levada em um cargueiro para ser entregue a um zoológico
da Inglaterra. Em pleno oceano, ela dá a luz a um pequeno filhote macho,
o príncipe
Kimba.
Eliza diz a Kimba que ele deve voltar para a África e assumir o trono
que pertenceu ao seu pai. O filhote consegue escapar da jaula e se joga
ao mar, a tempo de escapar de uma violenta tempestade, que acaba por
afundar o navio e arrastar sua mãe para as profundezas. Kimba é levado
pela correnteza até a costa da Península Arábica, onde é resgatado por
um garoto chamado
Kenichi,
que decide adotá-lo. Depois de um ano, começam os rumores de que, nas
míticas Montanhas da Lua – nos picos mais altos que se erguem entre o
Ruwenzori – existia um minério conhecido como "a pedra da lua", capaz de
irradiar uma poderosa fonte de energia. Dr. Plus e o Professor Minus
organizam uma expedição para investigar a lendária pedra. Com a equipe,
estão Kenichi e Kimba. Quando Kimba chega pela primeira vez à selva, é
um leão tímido e manso, já que fora criado entre os homens. Por isso,
ele se recusa a fazer parte de um mundo onde matar é a regra diária da
sobrevivência. Mas com o passar do tempo, ele recupera a confiança e
finalmente decide que deve reivindicar o trono do pai como o rei das
selvas, a fim de que possa melhor proteger os amigos animais dos
opressores humanos.
Kimba, agora um leão já crescido, encontra uma pretendente chamada
Lyre, vinda das partes baixas do rio Donga. Mas logo é atacado por uma tribo que se autodenomina Jungla, liderados pela
Rainha Conga, uma mulher de sangue

frio
que o captura. Ele é então levado ao vilarejo de Jungla. Conga tenta
subjugar Kimba e tomar a savana africana para si própria, mas o jovem
leão consegue escapar. Enquanto tenta fugir para as distantes Montanhas
da Lua, cobertas por uma enorme nevasca, ele enxerga um mamute descendo
daquelas alturas. Trata-se da
Grande Mãe Bzzz.
Ele e a paquiderme se tornam amigos bastante chegados. Mas durante a
ausência de Kimba, o leão caolho Bubu havia seqüestrado Lyre com a
intenção de forçá-la a se casar com ele. Assim que descobre esse fato,
Kimba mata Bubu, mas ainda assim não consegue encontrar a amada.
Ele descobre o caminho para uma vila de pigmeus, onde vislumbra uma
grande quantidade de peles de leões brancos, convencendo-se de que Lyre
estaria escondido em algum lugar daquele vilarejo. Ainda na vila pigmeu,
Kimba descobre a existência de uma leoa branca chamada
Lyona,
adorada pelos pigmeus. Lyona tenta convencer Kimba a se casar-se com
ela e permanecer na vila, dando continuidade à casta de sangue puro dos
leões brancos, considerados sagrados pelos antigos egípcios. Mas Lyre
aparece repentinamente e Kimba desiste da idéia de desposar Lyona.
Kimba retorna para a savana junto de Lyre, mas descobre que o povo de
Jungla está planejando um novo ataque. Kimba se apronta para a batalha,
mas a

situação
é desfavorável ao jovem monarca. Nesse momento exato, a Grande Mãe Bzzz
surge para salvar Kimba e ajudar no combate contra a tribo Jungla. A
paz finalmente volta a reinar na selva, e Kimba e Lyre se unem em
matrimônio. Alguns meses depois, nascem os gêmeos
Lune e
Lukio,
filhos de Kimba e Lyre, porém Lune, fascinado pela civilização dos
humanos, abandona a vida na selva para se aventurar mundo afora.
Pouco depois de Lune partir para o mundo dos humanos, um enorme castelo é
erguido no meio da selva. Trata-se uma espécie de cidadela destinada à
proteção dos animais contra as incursões humanas, idealizado pelo país
A, do qual faz parte o tio de Kenichi,
Higeoyaji (Sr. Bigode, um dos personagens recorrentes no star system de Tezuka), um homem dotado de grande senso de justiça e defensor dos direitos dos animais. No entanto, o elefante
Pagura e seus companheiros não confiam nos homens e se opõem fortemente à construção do castelo.
Um grande exército de elefantes ataca Kimba e seus seguidores, mas
quando Pagura e Kimba estão prestes a se defrontar em duelo, uma
terrível epidemia se espalha por toda a selva e provoca grande
mortandade entre os animais afetados pela doença. Dentre as vítimas está
a rainha Lyre, cuja morte acarreta muito sofrimento a Kimba. Quando a
epidemia começa a se alastrar pela selva, uma brigada de sobrevivência
do país A aparece para socorrê-los.
Um de seus membros é o
Dr. Albert Koch,
que desenvolveu um soro imunizador que pode salvar os animais
infectados. Agradecido pelas ações do Dr. Koch e de Higeoyaji, Kimba
decide acompanhar o time do país A em uma expedição às Montanhas da Lua.
Agora destemidos, eles decidem subir às terras altas dos picos
africanos, enfrentando terrível tempestade de neve na busca da pedra da
lua e sua fonte de energia perpétua. Além da expedição organizada pelo
país A, existe um país
B,
cujas tropas também querem tomar posse da pedra da lua. Os dois grupos
rivais lutam ferozmente entre si, e muitos de seus componentes morrem no
processo. Mas as equipes rivais finalmente conseguem chegar ao topo das
Montanhas da Lua. No entanto, eles são expostos ao terror e à força

devastadora
da natureza, e todos terminam mortos, à exceção de Kimba e Higeoyaji,
presos por uma nevasca de proporções épicas. Para salvar a vida do
amigo, Kimba empala a si mesmo com a faca que Higeoyaji segurava,
oferecendo o seu próprio corpo para protegê-lo do frio. Soluçando de
dor, Higeoyaji relutantemente aceita a pele e a carne fresca de Kimba,
e, com isso, sobrevive. Higeoyaji faz seu caminho de volta à selva pela
nascente do rio, onde termina por encontrar Lune. O filho de Kimba, a
essa altura, descobrira em sua jornada quão horrível pode ser a
sociedade dos homens. Por isso, decidira voltar à savana, seu verdadeiro
lar. Agora, Lune sucederá o legado de seu pai, como a terceira geração
dos leões brancos, com a missão de proteger e organizar o reino animal.
Além da Savana...
De toda a vasta galeria de personagens criados por
Osamu Tezuka,
apenas alguns deles tornaram-se ícones populares reconhecidos
mundialmente. Em parte, isso se deve ao fato do Japão ter sido um país
culturalmente fechado ao ocidente até meados da década de 60. Tezuka se
esforçava para que seus mangás pudessem assimilados universalmente com
facilidade, evitando que se tornassem um reflexo da sociedade japonesa,
com referências muito regionais e demonstrações que só pudessem ser
compreendidas dentro do imaginário popular japonês. Talvez por isso
Astro Boy seja hoje um dos personagens mais reconhecidos no mundo.

Mas Kimba também ocupa um lugar louvável: a sua série animada foi levada aos Estados Unidos por
Fred Ladd, o mesmo responsável pela adaptação de Tetsuwan Atom para
Astro Boy, e
gozou de grande sucesso. O fato da série ter sido produzida a cores
abriu as portas para que houvesse interesse em suas reprises, incluindo a
versão canadense que até pouco tempo era exibida no Brasil pelo canal
Boomerang. No entanto, a série de televisão foi uma co-produção entre a
Mushi Productions e a
NBC americana, cujas demandas queriam fazer da série uma versão felina de Astro Boy, onde o protagonista jamais cresceria.
A solução tomada no Japão foi a criação de uma segunda temporada,
levemente baseada na segunda metade do mangá, continuando a história de
Kimba, agora já adulto e casado com Lyre, mas o foco da maioria dos
episódios eram os seus filhotes: Lune e Lukio.
A segunda série também chegou a ser exibida tanto nos EUA quanto no
Brasil, mas nem de longe alcançou a mesma popularidade de seu
antecessor. Apesar dos textos estarem muito mais próximos do original
japonês, a dublagem beirava o amadorismo, sendo que os nomes da maioria
dos personagens havia sido trocada na adaptação de Fred Ladd, e isso fez
com que muita gente pensasse que essa segunda temporada fosse a
história do pai de Kimba e não a continuação das aventuras do filhote
crescido.
Apesar do envolvimento de Tezuka, o final da história foi editado
para um mais otimista, onde todos os personagens sobrevivem, incluindo
Lyre. Embora a conclusão original possa ser considerada um tanto
chocante para as crianças da época, a mudança é anticlimática e bate de
frente com o que deveria ser um dos pontos centrais da trama: o ciclo da
vida na natureza, onde termina o reinado de Kimba, começa o de Lune.
Insatisfeito com as versões animadas de Kimba: O Leão Branco até então,
Tezuka supervisiona a produção de uma nova série em 1989, mas falece
pouco tempo depois, com apenas seis episódios concluídos. O diretor
encarregado de levar o projeto adiante é o desconhecido
Takashi Ui, que precedeu o trabalho de veteranos como
Osamu Dezaki e
Rintaro na revitalização moderna das obras de Osamu Tezuka.
Diferentemente das duas adaptações posteriores, a nova série carrega
um visual adulto e temas mais sombrios, em contraste com o mangá
original do autor. Muitos episódios terminam em tragédia, com a morte de
vários personagens importantes, dando a história um tom pessimista. Ao
mesmo tempo, o estilo realista casa muito bem com a densidade do enredo,
tornando a trama mais convincente. Não há como negar os aspectos
datados da versão original de Tezuka, a começar pelo fato de que a
história foi escrita antes da descoberta das placas tectônicas,
justamente quando havia forte ceticismo quanto a teoria da deriva
continental. Tezuka sugere que os continentes haviam sido separados
através de uma grande explosão natural, e os Professores Plus e Minus
crêem que a pedra da lua tenha sido a responsável por este fenômeno.
Apesar das mudanças, permaneceram os aspectos gerais imutáveis na
obra de Tezuka: a crítica à tendência de excluir aquele que é diferente;
uma profunda desconfiança da fé no absoluto; a concepção da existência
de ciclos de destruição e renascimento; uma visão ecológica da
interdependência de todos os seres vivos. Esta poderia ser a versão
definitiva de Kimba, não fosse o fato de que a série possui um final em
aberto e temos apenas um vislumbre da infância e adolescência de Kimba.
Em 1997, no embalo do sucesso de
O Rei Leão,
um longa metragem foi lançado nos cinemas do Japão, cobrindo o arco
final do mangá com fidelidade, suprimindo a falta de uma conclusão para a
versão de Takashi Ui.
(Por Felipe Onodera)
eu sou fã desse desenho kimba o leão branco e eu só tenho 12 anos quando eu crescer vou trabalhar de cartunista e fazer que esse desenho volte nas telas das televisões de todo o mundo!principalmente o japão porque foi lá onde ele foi criado
ResponderExcluir